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Vivendo no Improviso - Emicida

Vivendo no Improviso - Emicida False

Por Charles Franco

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24/05/2011

Na edição #28 - Ano 16 da CemporcentoSKATE (nas bancas de todo o país) batemos um longo papo com o rapper Emicida. Confira abaixo trechos exclusivos da matéria:

Você nasceu na mesma época em que o rap surgiu, cresceu fazendo rimas e vivenciou a cultura de rua. E o skate? Teve alguma ligação forte com ele?
Porra, estou em débito com o Skate. Nós sempre fomos uma espécie de inimigos (risos). Durante minha adolescência, não consigo me lembrar da quantidade de vezes que tentei andar e não rolou. Peguei um puta trauma e morro de inveja quando vejo os caras andando. Todos os meus amigos andavam, mas eu era muito prego. Gosto muito de skate e de sua proximidade com o rap, afinal os dois acontecem na rua, e essa é uma característica que me identifico muito. No Skate existe a questão da persistência, do cara saber que deve sempre continuar em frente, que a perfeição é uma meta muitas vezes próxima e algumas vezes distante. O lance de um skatista buscar sempre pelo melhor, se aperfeiçoar é muito importante, isso traz disciplina.

O que o Emicida traz consigo dos cultos evangélicos da Vila Zilda?
O maior aprendizado que os cultos me passaram foi o lance da devoção, e acabei incorporando isso de uma maneira muito forte. É aquela coisa da música Gospel e do Soul, de você colocar sua alma em cada frase da parada. De alguma forma acho que aprendi a cantar com o sentimento e tento passar isso em cada uma de minhas músicas, acredito que ninguém ouve música para ficar triste, não é?

Mais de 50 mil seguidores no Twitter e vídeos com vistos por mais de 500 mil pessoas no Youtube. Como você trabalha esse meio digital?
Não sei dizerao certo, mas dou muito valor a essa questão da internet. Tenho uma relação muito próxima com os fãs, acredito que consigo sincronizar e criar boas estratégias on line. Nós, da Laboratório Fantasma, possuímos uma sintonia que nos permite explorar positivamente essas ferramentas. Um bom exemplo é o lançamento do nosso clipe novo, da música Rua Augusta. Fizemos twitcam com nossos seguidores e a notícia do vídeo bombou na internet antes de estrear na TV. Isso é fruto da forma como encaramos a coisa. Não vendemos produtos, fazemos com o coração, colocamos sentimentos em tudo o que produzimos. Acho que as pessoas deviam explorar melhor essa questão das redes sociais.

A fama lhe preocupa?
Não. Meus fãs são meus amigos, meu show é tipo uma sessão em grupo. Pergunto para as pessoas que som elas querem ouvir e vamos indo. Não me sinto muito a vontade quando toco em lugares em que o público está longe do palco. Mas sei que isso será mais comum daqui em diante, afinal é um reflexo da fama. Nada disso me preocupa, a fama só assusta quem não tem estrutura psicológica para lidar com ela. Eu sei muito bem quem está ao meu lado, sei quem são os parceiros e também quem são os pilantras, isso você saca rápido.

Você costuma dizer que era marrento e tímido. Essa espécie de carapuça lhe ajudou a desenvolver esse lado mais observador, claramente explorado nas batalhas de rima?
Ter uma postura mais séria acaba soando como marra. O simples fato de dizer não para algumas coisas já se torna suficiente para algumas pessoas me taxar de marrento. Sou um MC de batalha, eu vim das batalhas. Sou como os malucos que praticam esporte na rua. Tem os caras que já nascem no campo, que sabem jogar dentro do campo, e tem os que nasceram na rua, que fazem golzinho de chinelo. O negócio deles é ali, na rua. Eu sou como esses caras aí. Como venho das batalhas de MC’s, automaticamente me declaro um cara bom no que faço. Se fiz direito e acho que está bom, vou falar e pronto. Nas batalhas sempre me fechava e observava o adversário, analizando e estudando cada detalhe e a atitude dele. É um hábito meu, natural, nunca tive essa postura por desmerecer outro MC. Essa foi a forma que encontrei para me concentrar. Enquanto o cara falava, eu estava ali, trampando. Vida de MC é assim mesmo, você sobe no palco e mete a cara.

De repente chega um moleque magrelo, marrento e derruba conhecidos MC’s. Em algum momento isso lhe trouxe dificuldade na cena hip hop?
Sim, num primeiro momento todas as portas se fecharam, mas se abriram logo em seguida. No rap, o freestyle era tido como um lance de moleque, muitos diziam ser uma moda, que aquilo não passava de pessoas se xingando. Mas quando viram a repercursão que uma batalha de MC pode atrair de olhos interessados em nossa cultura, muitos que criticavam mudaram a forma de ver a coisa.

Suas músicas apresentam texturas e batidas muito bem produzidas. Isso é herança da época em que trabalhava no estúdio?
Num primeiro momento isso é sim uma herança do estúdio. Eu via o quanto os caras eram exigentes e chatos com a construção e qualidade sonora do que produziam. Sempre achei foda a música ir acontecendo fora dos loops, proporcionando variadas sensações, principalmente em função das letras. Como elas falam de muitas coisas e carregam muita informação, gosto de criar batidas que “conversam” com as letras. Mas ultimamente não tenho produzido com tanta frequência. Hoje estou voltado para o lance de estudar música, procurar fazer coisas novas. As viagens estão me ajudando muito nesse sentido, pois estou conhecendo vários lugares, culturas e posso trazer tudo isso para dentro do meu trabalho. Sei que fizemos muito barulho com as mixtapes, isso foi muito importante, sou eternamente grato. Mas tenho consciência que isso não vai durar 10 anos se continuarmos indo atrás dos gringos. Temos que transformar o rap num elemento de cultura brasileira e por isso estou estudando canto e vou iniciar as aulas de piano clássico. Eu quero gravar um disco de verdade, mas quero chegar no estúdio sabendo extamente o que vou fazer. Pô, cheguei num momento em que preciso encontrar um novo caminho para minha música.

Quer se transformar em produtor?
Não tenho essa pretensão. Apenas quero entender melhor o que rola dentro da minha música. Hoje é puro feeling, tenho vontade de entender cada uma das notas, texturas, tempos e timbres. Se conseguir aliar o feeling a técnica, aí sim o bagulho vai ficar bom. Se unir os dois e ter uma estrutura para saber negociar essa música, aí nós ficaremos imbatíveis(risos). Acho que nós, brasileiros, somos muito saudosistas, enaltecemos João Donato, Vinicus de Moraes, Tom Jobim mas e aí? Depois que esses caras morreram não fizemos mais nada? Tivemos importantes movimentos como a Tropicália e recentemente e o Manguebeat, legítimo e completamente diferente do que estávamos habituados. Quero levar para frente, creio que é isso o que deve ser feito.

Em muitas de suas letras você fala sobre um mundo melhor e mais com respeito entre as pessoas. Esse é o mundo idealizado pelo Emicida?
Sem dúvida alguma. Certa vez perguntaram qual minha religião e eu disse que é a Natureza. Acredito que o circulo natural da vida é o respeito, as pessoas têm que aprender a se respeitar. Esse é o motivo pelo qual tento sempre colocar isso em minhas músicas, até mesmo nas letras mais tristes eu coloco uma dose de esperança. Não quero que as pessoas desistam, procuro mostrar o lado positivo sempre. Hoje tem muitas pessoas ouvindo o meu som, tenho consciência de que a molecada acredita e vive por aquilo que falo em muitas de minhas letras. Sei bem como é, já fui assim, cheguei até a discutir com minha mãe por acreditar no que diziam as letras do Racionais, Facção Central e etc.

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