Gustavo Scarpa mistura futebol com skate

Após se tornar o “esporte queridinho” do público com sua estréia em Olimpíadas (Tóquio-2020), o skate tem chegado a lugares ainda mais, digamos, não-convencionais.

Para além dos nomes mais conhecidos como os de Raysa “Fadinha”, Kelvin Hoefler, Pedro Barros e outros, e de testemunharmos cada vez mais o skate inserido na televisão, internet e até no mundo das celebridades, o “carrinho” chegou em um novo lugar.

O skate figurou no torneio de futebol mais importante da América do Sul, a Libertadores da América 2021, conquistada pela equipe do Palmeiras no último sábado (27), em disputa contra o Flamengo, no Estádio Centenário em Montevidéo, capital do Uruguai.

O meia palmeirense Gustavo Scarpa, de 27 anos, ter levou seu skate ao receber a taça de campeão da Libertadores da América 2021, conquistada pela terceira vez pelo time do Parque Antártica (1999, 2020 e 2021). A cena inusitada do jogador comemorando com o skate na mão, ao lado dos companheiros estampou os jornais e sites especializados.

Porém, não é segredo para ninguém que esse quem vos escreve é Corinthiano, daqueles como diriam antigamente “Roxo e desde nascença”. Porém, antes de tudo isso, sou skatista e jornalista, mas também amante do Futebol como um todo, e deixando a rivalidade de lado, deixo aqui os sinceros parabéns a todos os meus amigos (que sabem quem são) e aos demais Palmeirenses desse Brasil.

Enfim, é muito legal ver o skate chegando também no meio futebolístico.

No entanto, Scarpa não é o primeiro jogador de futebol profissional a mostrar que tinha o skate e a bola nos pés. Em 2015, o zagueiro Felipe Augusto, então jogador do Corinthians, contou sua história de como trocou o shape pela bola em um encontro com o skatista Rony Gomes (veja abaixo).

 

 

Além do skate no pódio, Scarpa também manobrou dentro do avião, e depois no que parece ser uma garagem de um edifício. Os vídeos foram publicados pelo próprio meia em seus perfis nas redes sociais.

clique no link a seguir e veja:

https://youtube.com/shorts/trXy3ap8g3w?feature=share

 


É bom lembrar que não é a primeira vez que Scarpa faz referência ao skate. Há algum tempo o meia vem comemorando seus gols fazendo movimentos no ar com seus pés, como se estivesse fazendo uma manobra em cima do skate imaginário. Em março deste ano, ele comemorou o título da Copa do Brasil, conquistado pelo Palmeiras diante Grêmio de Porto Alegre (RS), com um vídeo andando de skate.

Scarpa cresceu na cidade de Hortolândia, no interior de São Paulo, e é skatista mesmo. Não apenas por utilizar jargões como “Skate Life”, ou comer bolacha com leite condensado no rolê. Dá pra ver que ele gosta muito de skate, sabe fazer suas manobras, independentemente do nível de skate. Ele é visto em vídeos praticando a modalidade street em pistas, na rua e até no CT do Palmeiras. Até por isso eu gostaria de ter escrito esse texto antes, por toda a visibilidade que Gustavo tem dado ao skate, mas com as correrias, fui deixando pra depois.

 

 

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Então, para ser mais justo e mostrar o poder do alcance que Scarpa deu ao skate localmente, em julho deste ano, ele fechou uma parceria com a Prefeitura de Hortolândia para construir um complexo que terá uma pista de skate com padrão internacional na cidade. O jogador se reuniu com prefeito José Nazareno (veja aqui), para tratar do projeto que será realizado pela Pug Skateparks, empreitada respeitada e encabeçada pelo nosso amigo e skatista Caio Peres.

E Gustavo Scarpa é grande responsável por isso e deve ser agradecido por fomentar o skate nesse interior paulista, celeiro de ótimos skatistas.

Caso Gustavo Scarpa ou sua assessoria cheguem a esse texto, este jornalista deixa aqui formalizado um pedido respeitoso para uma entrevista com o jogador.

 

FUTEBOL ELITIZADO. SKATE VAI PELO MESMO CAMINHO?

Ao escrever esse texto sobre um jogador profissional de futebol que gosta de skate, que pode trazer essa visibilidade ainda mais ampla, me peguei refletindo sobre algumas coisas não tão boas que esse “boom” pode trazer. Obviamente há muito o que se comemorar com essa visibilidade do skate. O universo do skate está servindo de referência para diversos campos como o da publicidade, do cinema, da moda, do entretenimento.

Um instrumento simples como o skate é como um passe de mágica para uma pessoa adentrar a um estilo de vida único e singular, sem retorno, mas que está sendo explorado, para o bem e para o mal, sem muito cuidado.

O skate está em quase tudo que vemos atualmente na TV, nas revistas, nas grandes redes de magazines e lojas esportivas, e esse é o grande problema. O skate está em tudo, mas para estar em todos esse lugares, ele precisa da curadoria de pessoas que andem e entendam de skate, seja nas transmissões de eventos na TV ou na entrada de uma nova marca de não skatistas em nosso mercado.

As marcas que se aproveitam desse momento para ingressar no universo do skate, não sabem que há uma engrenagem a ser seguida, como a necessidade de montar um time de skatistas para representar a marca, norteados por um team manager que tenha vivido o skate, além de investir em revistas e mídias especializadas, e não se esquecer de vender para os pequenos lojistas sem impor muitas condições e dificuldades.

Há muita gente oportunista de outros setores querendo entrar no mercado do skate. Dou exemplos como um hipotético dono de uma madeireira, que tem a idéia de produzir shapes para este mercado em voga, ou ainda o dono de uma fábrica de plásticos que se mete a produzir rodas.

Fora esses problemas, temos a vagarosa e gradual perda de espaço das tradicionais skate shops, que são a base do começo de qualquer um no skate e também um dos pilares da nossa indústria. Essas lojas especializadas em skate estão minguando e morrendo. Elas perdem em preço e agilidade para as grandes lojas online e magazines. Já abordei esse tema em um fio publicado em meu perfil no Twitter (leia aqui).

É óbvio que é legal ver o skate popularizado, acompanhado no mundo todo, mas em contrapartida é triste ver toda a cadeia de skate se quebrando e vendo o universo do skate se tornar algo elitizado (como o próprio futebol – que se transformou cada vez mais em mercadoria com montagem de times e arenas milionárias, ingressos caros e um mercado muito rentável que são os direitos de transmissão dos jogos).

Será que o processo de arenização do futebol, que é excludente, elitista e totalmente voltado para uma lógica neoliberal, transformando torcedores em consumidores, tornará skatistas e simpatizantes em também meros e valiosos consumidores?

Com materias básicos como eixos, shapes, rodas e rolamentos, até lixas (nacionais e gringas) cada vez mais caros, estamos caminhando para um elitização de certa forma.

Será que assim como o futebol o Skate Moderno nos decepcionará num futuro breve?

Essas são as perguntas que deixo no ar para o leitor se fazer e tentar encontrar uma resposta.

 

* Este texto não reflete necessariamente a opinião da CemporcentoSKATE.