O ano era de 1995, o plano real estava engatinhando, o mercado brasileiro de skate se reformulando depois da queda e o país acabava de testemunhar as vitórias de Digo Menezes (Münster Monster Mastership/Alemanha) e Bob Burnquist (Slam City Jam/Canadá), alçando o Brasil de uma vez por todas para o rol dos grandes do Skate Mundial. Pouco depois, no mês de julho, chegava ao mundo a revista CemporcentoSKATE, criada pelo jornalista e fotógrafo Alexandre Vianna.

Com o bom momento do skate no Brasil, naquele mesmo ano, o então vereador Alberto Hiar (Turco Loco) criava o “Dia do Skate” no município de São Paulo, com o intuito de comemorar a data todos os anos no dia 03 de agosto. A moção foi aprovada pela Câmara Municipal e ratificada como lei (11.812) pelo prefeito da cidade na época, Paulo Salim Maluf. A aprovação da data incentivou e encorajou a criação de homenagens semelhantes em todo o Brasil (notícia publicada na seção Fiksperto da ed. #2 da CemporcentoSKATE).

Reprodução da matéria publicada na edição #3 da CemporcentoSKATE, em setembro de 1995


A data é pouco conhecida entre os skatistas das gerações mais novas, que reconhecem o Dia do Skate como o dia 21 de junho. Conhecido como Go Skateboarding Day (GSD), esta outra data também é uma homenagem ao ato de se praticar o skate, independente de qual seja a modalidade, a nível global. Mas o “Dia do Skate” em São Paulo é um movimento pioneiro, a despeito de qualquer crítica que possa existir em relação a sua criação ou concepção. O GSD só começou a ser comemorado em 2003 ao redor do mundo, ao ser criado pela IASC, a Associação Internacional das Companhias de Skate. No Brasil, o GSD ganhou as ruas em 2010, se firmou em 2011 e segue sendo uma tradição por aqui.

A importância do Dia do Skate, instituído em São Paulo há 25 anos, não pode ser esquecida. A data veio poucos anos depois da proibição imposta aos skatistas da Capital Paulista pelo então prefeito Jânio Quadro, em 1988, e que teve tal decisão revogada pela administração seguinte, encabeçada pela prefeita Luiza Erundina, que a partir daí se tornou grande incentivadora da prática do skate na cidade. Vale lembrar que em administrações posteriores o skate ganhou mais de 50 pistas e o espaço do skatista na sociedade paulistana passou a ser de mais respeitado.

O Dia do Skate em São Paulo possibilitou a realização de diversos eventos relacionados ao carrinho na cidade, em um momento que mal existiam pistas próprias para a prática e o preconceito da sociedade e opinião pública contra os skatistas reinava absoluta. XGames havia sido realizado apenas uma vez até então, e ainda não tinha a audiência que conquistou com o passar dos anos. O skate não aparecia na TV e nem as competições eram glamurizadas como são hoje.

 

Lei 11.812 de 26 de junho de 1995:

 

Art. 1 – Fica instituído, no âmbito da Secretaria Municipal de Esportes, o dia 3 de agosto como Dia do Skate.

Art.2 – Essa data será comemorada anualmente, com palestras, práticas e competições voltadas para incrementar a prática desse esporte pelos jovens em geral.


Art.3 – As despesas com a execução da presente lei correrão pelas dotações orçamentárias próprias, suplementadas se necessário.


Art.4 – Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

 

 

Naquela época, andando pelas ruas da maior metrópole do país, você poderia ser parado pela polícia sem nenhum motivo só por estar de skate (a probabilidade era muito maior naquele tempo). A entrada no Metrô não era permitida com o skate à vista. Você tinha que dar um jeito de ter uma sacola que o cobrisse completamente ou deveria colocar ele em uma mala, caso contrário estaria correndo o risco de ter o skate aprendido pelos agentes metroviários, entre tantas outras coisas absurdas que se apoiavam no estereótipo de que o skatista era um marginal.

Anos depois, já ocupando o cargo de Deputado Estadual, Alberto Hiar conseguiu estender a ação da Lei do Dia do Skate na cidade para todo o Estado de São Paulo.

Hoje, se o skate é reconhecido como o segundo esporte com mais praticantes no país, perdendo apenas para o bom e velho futebol, isso se de à inciativas como essas citadas no começo do texto, que, embasadas por vitórias brasileiras no exterior, ajudaram a construir o respeito do qual o skate goza atualmente, inclusive tendo sua tão aguardada espera por alguns nas Olimpíadas de Tóquio, que foram adiadas para 2021 por conta da pandemia mundial causada pelo novo coronavírus. 

 

Relembre como a CemporcentoSKATE noticiou as vitórias brasileiras e a criação da data, abaixo: