Rogerio Lemos

 

Rogerio Lemos é um desses skatistas que atua em diversas frentes, sempre norteado pela paixão pelo skate. Rogério criou eventos, atuou em redações e em departamentos de propaganda/marketing de diversas marcas, trabalhou com comunicação nos primórdios da internet.

Rogerio hoje estuda nos EUA, continua crescendo profissionalmente e ralando os eixos sempre que a agenda permite.

foto: Rafael Roma


Apresente-se, Rogerio Lemos.

Nasci em São Paulo (SP) mas minha infância foi no interior, em Sorocaba (SP). Depois mudamos de volta para São Paulo e em 1986 comecei a andar de skate. Eu tinha 13 anos de idade mas já gostava de ouvir punk e new wave (será que alguém lembra disso?), e vi que muitos dos caras que curtiam esses tipos de música andavam de skate, foi pela música que me interessei pelo skate. Logo após meu primeiro skate, meses depois mudamos novamente para Sorocaba e logo de cara já conheci os skatistas da velha guarda da cidade e mais alguns poucos que estavam começando a andar. Aí o skate entrou na veia de vez. Até meados dos anos 90 andava mais nas ruas do que em pistas, corri vários campeonatos de street da época. Mas decidi fazer faculdade de Publicidade e Propaganda influenciado pelos anúncios da Thrasher e pelas artes do mestre Jim Phillips. Antes mesmo de me formar já comecei a trabalhar com websites e marketing online (1996), com internet engatinhando ainda. Fui um dos primeiros web designers brasileiros e trabalhei para diversas marcas de skate (Vans, Drop Dead, Pocket Pistols, Gardhenal, Inc3, OSB…), lojas (Action Now, Wave Boys, Balboa Boards…), revistas (Tribo, Thrasher), skatistas (Alan Mesquita, Otávio Neto), bandas (O Inimigo) e eventos (Rheumatic Hard Core Session, Old School Skate Jam e diversos circuitos amadores). Tem uma lista grande de trabalhos que me orgulho muito de poder ter feito, que me abriram portas e me ajudaram a chegar onde estou hoje.

 

Fale um pouco mais sobre o Rheumatic. O evento se tornou um marco no calendário brasileiro.

Esse nome é bem estranho né? “Rheumatic”… Foi ideia de um amigo meu, o Evandro Ota. Eu estava organizando um churrasco entre amigos de longa data na Big House, uma pista que existia em Sorocaba, e liguei para o Ota convidando para a sessão. Na hora ele disse “Sessão? Só se for uma sessão no médico pra curar meu reumatismo, tipo Rheumatic Session”. E essa brincadeira ficou séria mas sem perder a diversão da parada. Fiz nove edições. Três em Sorocaba e seis em Piracicaba, com meu parceiro Cristiano Pira. As primeiras com patrocínio principal da Vans e depois da metade foi Converse. A ideia sempre foi desvincular a pressão dos campeonatos e trazer a legítima essência do skate, com bandas, artes, jam sessions, best tricks, piores manobras, melhores tombos… A cada bateria dos amadores a gente distribuía muita coisa (tênis, shapes, rodas, tricks, roupas, acessórios…), praticamente todos ganhavam algo. E os pros recebiam grana mesmo. Mas o formato era tipo um anti campeonato. E vejo que depois disso surgiram inúmeros eventos nessa pegada e acho muito legal que o Rheumatic abriu as portas para evidenciar que skate é muito mais além do que apenas títulos e campeões. Cheguei a ir em pista mesmo não sendo no dia do evento e ouvir a molecada dizer “agora sessão Rheumatic” e começavam a andar juntos e se divertindo não só com as manobras certas mas com os erros também. Tenho muita saudade de tudo que fizemos e me orgulho de ter feito algo diferente e original. Eu considero quase que uma saga, está faltando o capítulo dez.


O que te fez ir pros EUA?

A vontade de estar na Califórnia e vivenciar o skate na fonte e no maior mercado mundial desse segmento foi um dos principais motivos da minha mudança pra cá. Queria me aperfeiçoar também e entender melhor este mercado que domina o mundo do skate e me atualizar com novos conhecimentos. Hoje estudo um curso Master em Administração de Empresas em Irvine e acredito que isso tem agregado muito na minha experiência e me preparado melhor para as novas etapas que irão surgir.

 

Qual a grande diferença entre o skate brasileiro e o norte americano?
 
Vejo que o Brasil não está mais tanto atrás com relação a pistas de skate. Aqui tem mais e melhores pistas, mas desde que cheguei aqui há quase 2 anos tenho visto muitos skateparks surgirem no Brasil também. A diferença é a qualidade das pistas daqui, o concreto que os caras usam parece ser de uma qualidade superior. Posso estar enganado mas a impressão que dá é essa. Quanto a nível dos skatistas acredito que o Brasil já está de igual para igual, porém acho que aqui tem maior número de bons skatistas, por conta do mercado ser melhor talvez, e isso realmente é o maior diferencial daqui com relação ao Brasil. O mercado do skate é bem mais forte e estruturado, apesar de que sinto uma mudança acontecendo, talvez relacionada ao fator olimpíadas e das grandes corporações que estão se envolvendo no skate de uns anos pra cá. O que de certa forma pode ser muito bom, dependendo do ponto de vista.

foto: Rafael Roma

O que tem feito nos EUA?
 
Tenho andado sempre que posso, gosto muito de ir para a pista de Linda Vista e de Oceanside. Fui em alguns grandes eventos como o Vans Park Series, Vans Pool Party, Street League, entre outros. Eu gosto muito de ir nesses eventos para estudar como é a estrutura e absorver mais conhecimento, além do que tem sempre muitos brasileiros por lá também. Visitei diversas marcas de skate também e tenho mantido contato com muita gente do meio para entender melhor essa força do mercado americano. Ultimamente estou tentando voltar às minhas origens e fazer um street básico também, andar em curbs e fazer umas sessões em picos de rua, chega de só andar em transição… Já fiz vários rolês turísticos também com minha mulher. Enfim, tentando aproveitar a Califórnia o máximo que posso.

 

Existe algo que os americanos tem a aprender com os brasileiros?

A “brasilidade” é algo que eu percebo que encanta os americanos. Nós somos mais debochados e desregrados, mas no sentido bom dessas palavras. E isso se aplica no jeito de andar de skate também, na criatividade e no “crazy brazilian style” que eles tanto falam. Talvez eles nunca irão aprender a ser igual aos brasileiros, mas acho que o intercâmbio de experiências é algo que agrega muito para ambos.