De vez em quando surge alguém no skate vindo do nada e, de uma hora pra outra, cria um impacto e faz as coisas parecerem melhores do que eram. Pode ser através de manobras, da forma de enxergar a cidade, fazendo um vídeo, ou trazendo uma narrativa inspiradora.

Kim Terra apareceu na cena do skate paulistano com uma pasta de colagens debaixo de um braço e skate no pé. E os que já cruzaram seu caminho não ficaram indiferentes. Sua visão do que é skate não é limitadora: “Skate não tem que ter forma alguma, tem que andar onde quiser, como quiser.” Kim acabou manobrando e ilustrando páginas da nossa edição de aniversário, e agora fala sobre o skate, a arte, e a vida. No primeiro áudio que recebi, sua voz mansa harmonizava perfeitamente com a música de fundo, “Blowin’ in the Wind”, de Bob Dylan.


De onde surgiu a ideia do drop?

Esse telhado fica bem na saída do metrô Liberdade, próximo de onde trabalho. Eu sentava ali pra fumar e via praticamente do mesmo ângulo em que o Allan (Carvalho) fez a foto. Imaginei que dava pra dropar dali, subi sem skate pra conferir se era resistente. Skatista sempre olha as possibilidades, às vezes vê uma transição de ponta cabeça e fica imaginando como seria se aquilo estivesse no chão.

E levou um tempo até o dia da manobra.

O skate me ensinou a ser paciente. Tem picos rápidos, que você chega, passa uma vela e já está andando. Outros exigem uma observação diária. Muitas vezes, vou até o lugar só pra ficar olhando o pico.

A manobra acaba sendo a coisa mais simples do processo.

O drop não durou nem dez segundos, acertei de primeira. Mas foram uns três meses de observação. Isso torna tudo mais gostoso, você cria um universo todo no seu pensamento e chega o dia em que você o materializa com uma manobra.

E os registros?

Nem imaginei que iria registrar, muito menos que teria foto e vídeo. Nós temos um dote, de pelo olhar conseguir perceber as pessoas que são sensíveis. Um parceiro aqui do meu trabalho, Guilherme, nunca havia filmado nada de skate mas curtiu a ideia, e acabou filmando o drop.

Onde você nasceu?

Sou nascido em Santos (SP). Tenho 22 anos, ando de skate desde os 13. Os esportes que eu tentava praticar exigiam boletim da escola, uma disciplina, eu não me encaixava. Foi no skate que encontrei amigos que sentiam a mesma coisa que eu.

Como surgiu a arte na sua vida?

A arte me mostrou que é necessário errar. E há beleza nisso. Sempre gostei muito de música, foi meu primeiro impulso artístico. Os momentos que a música proporcionava, reunir pessoas para escutar e tocar. Depois veio o skate, e com essa soma dos dois (skate e música) passei a sentir necessidade de me expressar. Eu tinha sequelas da escola, era um aluno ruim, ia mal na aula de artes, tinha problemas com as cores. Mas o skate me ajudava com isso, era aquela coisa de “vai lá e faz”. Eu sempre tinha muitas revistas à mão, várias CemporcentoSKATE em casa, porque eram distribuídas em eventos, pegava nas skateshops. A fotografia de skate mexe muito com perspectiva, profundidade, isso é algo que me interessa bastante. Caí meio que de para quedas na colagem, mas sempre acreditei que teria como ser algo que não fosse manual, analógico. Minha mãe é pintora, a gente sempre fez coisas a mão, móveis para casa e tal. Nesse processo, descobri que meu avô também tinha relação com fotografia. A arte vai te ajudando a se conhecer, a conhecer sua própria história.

Como você enxerga a questão do consumo, da moda?

Skate é um gasto, a gente precisa ter consciência de onde colocar nosso dinheiro. Que marca é essa? Quem é esse cara? Quem é o dono dessa loja onde estou comprando? São perguntas que devem ser feitas. Aqui você usa uma marca muitas vezes para participar de um grupo, aderir a uma identidade. A gente tem que investir nas marcas nacionais, as que vão ajudar a reformar uma praça, que estão fazendo vídeo aqui, apoiando uma molecada daqui. A gente tem que ser consciente nas escolhas, pra depois não precisar dizer “obrigado por nada”.

E a tal da “História Universal dos Deslocados”?

Essa edição nova (215) me deu um gás pra fazer colagens de novo. O Ban (Allan Carvalho, fotógrafo) tem um olhar sensível de identificar as pessoas que estão andando.  Achei legal essa coisa da história dos deslocados, peguei numa outra publicação. Eu tentei vários outros esportes, mas o skate era um lugar onde as pessoas entendiam minha revolta com as coisas da escola. Nas  outras turmas, no futebol por exemplo, eles não ficavam indignado com nada, pra eles estava tudo bem na escola. Os deslocados estavam ali no skate. Tenho uma história engraçada, que eu queria compartilhar, faz parte desse contexto, é uma história que acho interessante.

Conta.

Eu era bem novo, estava começando na faculdade de cinema em Santos (SP) e numa dessas festas, cheias de molecada do skate, rolou de eu ficar com dois outros caras. Saí de mão dada, passando pelo meio de todo mundo que estava lá. Aí no dia seguinte, na sessão, foi aquela coisa, todo mundo falando sobre os acontecimentos da noite anterior. Meus amigos comentaram que eu havia ficado com dois meninos, e perguntaram: “mas e aí, os moleques eram bonitos? Então, daora!” Passei a confiar mais ainda nos meus amigos, saber quem eles são, e crer que no futuro não serão racistas, homofóbicos. Pra mim skate é sobre cada um fazer o que quer, ser respeitado e se sentir à vontade. Skate é isso.

Você escreve uns poemas também.

Sempre gostei muito de ler, ficção, sempre fui muito curioso. Aí fui atrás de conhecer poesia, fui na livraria e vi uma coletânea de poemas com Vinícius, Drummond…um livro verde, com um passarinho na capa. No primeiro poema que li, compreendi, aquilo foi como um abraço. Poesia é compreender, não necessariamente entender. Tem livros que você tem que deixar guardado e tem a hora certa pra pegar e ler. Não adianta forçar. Um amigo meu, o Pesado, que tinha uma loja de skate, eu trabalhava pra ele, e num dia ele me perguntou “por que você não escreve poesia?” Pra mim aquilo era muito distante, mas com o tempo fui me apaixonando e escrevendo e deixando guardado, só pra destravar a mão. Tinha 16, 17 anos, fiz um zine de poemas e fui pra Paraty, estendi uma canga e botei pra vender. Não vendi nenhum, mas fiz várias trocas, conheci muita gente.

Você falou que observou bastante o pico do drop. Mas observar parece ser algo que você pratica, não só com olhos de skatista.

A gente tem que ter mais olhos para os outros. Empatia. Muitas vezes você entra num lugar e as pessoas estão lá, ocupadas, trabalhando, e a gente ignora que ali estão os sonhos, a história de cada um. A gente tem que ficar mais atento ao outro.

 

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