JEAN SPINOSA

 

Sobre essas ruas sujas cheias de lixos acumulados, entupida por carros que estão quase sempre atrasados, carrego uma ferramenta que ultrapassa obstáculos, me levita pelo asfalto e assim me perco nos meus caminhos imaginários. Desafios superados aos passos largos de uma remada.

Continuo deslizando e assim deixando meu rastro de energia sobre esse plano. Nas paredes, em meio aos pixos e graffitis poéticos da cidade, deixo meus wallrides.

São quase dezessete anos de skate. Muita história pra contar, posso dizer que skate é bastante coisa boa junto. Sem sombra de dúvidas, puro amor. Mas também sabe ser raiva.  Se quer acertar é comum cair, desistir jamais: esse é um dos aprendizados mais importantes do skate. Saber cair e sempre levantar, tentar de novo, quantas vezes precisar, não abaixar a cabeça para os desafios. Tem que correr o risco, levantar com sede de fé, saber esperar a hora certa, confiar em você e na sua intuição. Insanidade que encanta, encantamento que parece mágica, atitude que confronta sua capacidade.

Arte em movimento. Ferramenta de expressão, amizades que prevalecem se fortalecem. Não existe o melhor ou pior, e que todos somos importantes, todos temos algo a ensinar e a oferecer. Se ver em todas as pessoas, somos todos irmãos. Eu sou um outro você. E ser o tal “vencedor” já não tem importância.

O que não cabe no skate, mas que infelizmente ainda é presente, é preconceito, desrespeito, falta de compreensão, aproveitadores, enganadores, pessoas que muitas vezes nunca pisaram no skate mas ganham a vida com ele. Usam do skatista até enjoar e depois descartam, como já vi em diversos casos, principalmente aqui no Brasil. Onde o  filho chora e a mãe não vê. Só peço um pouco mais de humanidade, comprometimento. Precisa ser uma família, skate é família e só funciona assim, um sentimento que cresce de criança e que você carrega pro resto da vida.

É preciso lembrar que todos temos sonhos, sentimentos, somos pessoas como qualquer outra, precisamos sobreviver, não dá pra comer roupa, tênis ou peças de skate. Eu vejo muitos skaters bons deixando de lado seus sonhos, porque precisam pagar as contas, não podendo fazer o que realmente gosta, o que te deixa feliz, e assim muitos vão passando por desilusões e desanimando quem tinha uma esperança.

Nem todo mundo consegue conciliar trabalho com paixão. A gente até tenta se desdobrar em vários, mas o tempo é curto e passa voando. Meu sonho é poder me dedicar somente ao skate, poder passar pra nova geração o skate criminalizado, terrorista, o skate que irrita o sistema de certa forma, fomenta revolução pessoal. Um tapa na cara da sociedade pacata, um murro na cara dos fascistas.

Jean Spinosa

26 anos / 16 de skate

Piracicaba (SP)

patrocínios: Crail, DSAL / apoios: Nature, Balboa, Arapuca

texto por Jean Spinosa

fotos Caetano Oliveira, exceto:

retrato abertura: Anairam De Leon / foto wallride reverse: Allan Carvalho